Tem uma espinha querendo dominar o mundo! - Adolescência Alternativa

Tem uma espinha querendo dominar o mundo!

"Vei, estou realmente me convencendo de que minha vida de adolescente é um troço medíocre. E vou explicar por quê. Primeiro, o menino de quem eu gosto, e que finalmente consegui beijar no outro dia, resolveu me tratar como se eu fosse invisível. Tenho certeza que ele deve cumprimentar a inspetora da escola de um jeito muito mais fofo do que faz comigo. Sério! Sete dias exatos se passaram dês de que agente ficou e ele só me dá thauzinho de longe, não faz a mínima questão de vir conversar sobre qualquer coisa tosca como o tempo, ou um programa de TV, o absurdo que é a minha vida! Como se não bastasse Mateus ter chegado ao nível 10 na escala de atitudes mas idiotas que um garoto pode tomar na pós-ficada, minha mãe anda mais irritadinha do que nunca. 
Ela me tirou da cama muito antes das 10h. O dia ainda não tinha decidido se ia ser frio ou quente. No fundo, queria muito entender o que a faz pensar que é uma boa mãe por me fazer acordar TODOS OS DIAS com os galos da vizinhança. Cara, isso não tem nada de engraçado! Pra piorar, meu cereal de bolinhas coloridas acabou. E tem mais: me olhei no espelho agora e tem uma bola vermelha, do tamanho do olho do Chip, o meu gato, bem no meio da minha bochecha. Uma espinha realmente GIGANTESCA! A única coisa que me consola é o fato de Mateus não olhar na minha cara por mais de 5 segundos, quando agente se encontrar no cinema hoje a noite. Então, periga ele nem perceber o imenso detalhe. (Aliás, eu sei que detalhe imenso não existe. Mas quem se importa?). Resolvi ligar para Tata, para desabafar. O celular tocou cinco vezes e ela atendeu com uma voz péssima. Quase desliguei na cara dela. Mas tive medo do troco.
Falei baixinho:
- Tata, já ta pronta para ir no cinema?
- July, cê ta brincando né?
- Claro! É que eu to mega deprimida e preciso conversar. De verdade.
Nessa hora, mandei ver numa vozinha de choro, o que meio que limpou a minha barra. A Tata mudou na hora:
- Sério, July? O que aconteceu?
- Muitas coisas. Vou começar pela mais grave:  tem uma espinha do mal querendo dominar o mundo. E ela começou a atacar aqui, bem no meio da minha bochecha.
E apontei pra bola vermelha, num acesso de loucura, como se a Tata pudesse me ver. Ela riu.
- July, eu tenho um secativo ótimo, que já vi fazer milagre.
E eu implorei:
- Ah, Tata, então vem com esse negócio pra cá, vai? E rápido!
- Belê. Só preciso tomar um banho.
Nisso, minha mãe começou a gritar feito uma doida lá fora, avisando que ia tirar a mesa do café se eu não resolvesse aparecer em 5 minutos. E eu gritei de volta:
- Também te amo, mãe!
Essa é uma tática que eu uso quando ela acorda com humor de dragão. E querem saber? Sempre funciona!
Quando a Tata chegou, minha mãe, um pouco menos nervosinha, deu o fora. E nós ficamos fofocando a tarde toda. Cheguei à conclusão de que, com ou sem espinha, com ou sem namorado, com ou sem cereal de bolinhas, a vida fica um pouco menos deprimente quando há uma amiga que te entende! E esse é o caso da Tata."

~Rita Trevisan